terça-feira, junho 16, 2009

Bondade na Berlinda



Antes considerada uma virtude, a generosidade agora é vista com desconfiançae como sinal de fraqueza pela sociedade

João Loes e Maíra Magro


O altruísmo e a bondade estão em baixa. Hoje, a preocupação com o bem-estardo outro é mais vista com desconfiança ou como sinal de ingenuidade do quecomo virtude. Essa é a conclusão a que chegaram a historiadora BarbaraTaylor e o psicólogo Adam Phillips, autores do livro "On Kindness" (Sobre aBondade, em tradução livre), publicado nos Estados Unidos recentemente eainda sem versão em português. Com informações colhidas em estudos de teoriasocial, psicanálise e registros históricos, eles defendem a importância doaltruísmo para a construção de uma sociedade funcional, mas também mostramquanto a noção de bondade foi distorcida e hoje é mais malvista do queentendida como algo positivo. "As pessoas não se esqueceram do valor dabondade, mas perderam a confiança na habilidade própria e na dos outros deserem bons", disse Barbara à ISTOÉ. "A bondade virou sinal de fraqueza."



Rogério Skylab, músico carioca de 40 anos, é um desses desencantados. Paraele, a bondade não se encaixa na equação que rege o funcionamento dasociedade moderna. Skylab acha que o homem bondoso acaba vivendo na sombradaqueles que atropelam dilemas éticos e morais sem peso na consciência."Hoje quem quer se dar bem tem de se afirmar em um mundo que não acolhe aideia da bondade desinteressada", filosofa. Para os especialistas, a opiniãode pessoas como o músico é fruto da derrocada ideológica e religiosa que omundo ocidental viveu no século XX. Segundo Ari Rehfeld, professor esupervisor da clínica de psicologia da Pontifícia Universidade Católica(PUC) de São Paulo, os eventos marcantes entre os 100 anos que separam 1901e 2001 gestaram uma legião de céticos. O processo de recrudescimento dadesconfiança do homem ocidental começou com as promessas não cumpridas dosregimes políticos como o socialismo soviético, passou pela barbárie donazismo e culminou com a criação da bomba atômica. "É um conjunto desituações que deixa uma mensagem bastante clara: desconfie do ser humano",diz Rehfeld.


Diante de grandes tragédias, como enchentes e furacões, que deixam milharesde desabrigados, o ser humano sabe ser solidário. Esta generosidade diluídanão costuma ser questionada. É diferente, porém, quando a bondade tem umúnico rosto. Casada e mãe, Clarice Barata, 56 anos, é analista contábil dobanco Itaú há 25 anos, onde também faz trabalho voluntário, e aprendeu alidar com a desconfiança. "É comum acharem que eu quero ganhar alguma coisaou que estou tirando vantagem quando me ofereço para ajudar", diz. Nessesanos todos de voluntariado, ela viu muita gente desistir do trabalho socialpor ter de se explicar, repetidamente, aos céticos em relação às boasintenções. "Mas é assim mesmo, quem é voluntário deve estar preparado paraisso", afirma.


Um caso recente, porém, chamou a atenção até da experiente Clarice. Adesconfiança veio de uma jovem de 15 anos que participa do programa "Clubedo Livro", integrado por ela. Na iniciativa, o voluntário acompanha, portelefone, um adolescente na leitura de uma obra. "Entendo que ela já é moça,que tem de estar atenta aos assédios, mas fiquei impressionada com o cuidadodela em não se expor", conta Clarice. É difícil aceitar que vivemos em ummundo onde uma adolescente precisa desconfiar de uma senhora de 56 anos quequer ajudá-la. Nem por isso Clarice desanima. "Não me vejo completa e felizde outra maneira", diz. Um estudo publicado no Journal of Research inPersonality pelo professor Michael Steger, da Universidade de Louisville,nos Estados Unidos, no ano passado, confirma o sentimento de Clarice.Segundo ele, o comportamento altruísta tem mais impacto positivo sobre apercepção que o indivíduo tem de sua própria felicidade do que o hedonista,que busca a satisfação de prazeres exclusivamente pessoais.


O altruísmo teria nascido no tempo dos caçadores e coletores, 200 mil anosatrás, de acordo com uma pesquisa recém-publicada na revista científicaScience. "O homem altruísta surge em um contexto de guerra constante porrecursos fundamentais à sobrevivência", diz o economista americano SamuelBowles, responsável pelo estudo. Grupos com indivíduos altruístas - que sesolidarizavam com colegas que não eram necessariamente de suas famílias -tinham mais chances de vencer a disputa por uma zona de caça, por exemplo.


Para Ruth Mace, antropóloga da University College London, o peso de umadescoberta como essa não pode ser minimizado. O homem altruís ta descritopelo estudo de Bowles mostra que se preocupar com o outro e ser generosopode ter sido uma vantagem evolutiva. "O estudo reabre o debate sobre a áreade atuação da evolução", afirma Ruth. "Ela não estaria restrita aos genes deum indivíduo, mas também agiria no comportamento social de um grupo" diz. Emmeio à crise de valores pela qual o mundo passa, a historiadora BarbaraTaylor, coautora de "On Kindness", vê o momento como uma oportunidade paramudar. "Aos poucos as pessoas veem que deram valor demais ao individualismoe acabaram isoladas e infelizes", diz. Identificar o problema é o primeiropasso em direção à solução.

3 comentários:

Elaine disse...

Olá!
Acabo de te encontrar acompanhando meu blog; seja muito benvindo, Edu.
Vi que você edita dois blogs. Assim que der vou conhecer ambos um pouco melhor.
Beijos e fique com Deus.

Diário de uma alma disse...

Oi Elaine,
Amém!
Obrigado pela visita aos meus blogs.
Fique com Deus
Bjs
Edu

S* disse...

Já ninguem acredita na bondade desinteressada, lamentavelmente. Parece que ninguem faz nada de bom sem segundas inteçoes. :S

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